Por João Gabriel de Lima
Heitor Villa-Lobos, Walter Smetak e Marco Antônio Guimarães, cada um a seu modo e cada qual em sua época, foram ou são mais do que ótimos compositores: ao enriquecer suas partituras com timbres ou sonoridades que até então não existiam, passam a fazer parte do grupo restrito dos inventores de música.
Muitos dos sons inusitados que povoam as músicas desses três criadores não são completamente inéditos. Grande parte dos instrumentos construídos por Villa-Lobos, Smetak ou Marco Antonio se baseia nas ideias de inventores anônimos – os artesãos populares. O tambu-tambi de Villa-Lobos, por exemplo,
é decalcado do bastão de ritmo indígena. Vários instrumentos tocados pelo grupo Uakti – que tem em Marco Antônio Guimarães seu projetista – emprestam técnicas do artesanato popular e têm como matéria-prima os mesmos bambus e cabaças usados para embalar danças e folguedos. Não existe criação a partir do nada: o mérito dos inventores está em fazer a ponte entre a criatividade espontânea de quem constrói instrumentos para satisfazer necessidades imediatas – que podem estar relacionadas com a sobrevivência, como a caça e a pesca no caso dos índios, ou com o prazer, como no caso das festas populares – e os conhecimentos acústicos e teóricos herdados da música de concerto. Assim, a criatividade às vezes reside em pequenos detalhes que alteram profundamente a sonoridade original. Um exemplo é o reco-reco. Villa-Lobos aplicou-lhe uma surdina,
abafando-lhe o som, ao passo que o Uakti adaptou ao mesmo instrumento uma cabaça,
tornando seu timbre mais grave. O talento do criador reside em extrair de um rústico e barulhento reco-reco todas as nuances sonoras que ele esconde.
Muitas vezes a genialidade dos inventores é grande demais para ficar presa às formas de instrumentos musicais que já existem. Quando isso acontece, eles procuram a música em objetos que nunca haviam participado de uma orquestra até então. Smetak, em um arroubo de criatividade, transforma um funil e uma mangueira em um instrumento de sopro,
enquanto Marco Antônio Guimarães deixa as panelas de cozinha sem tampas para fazer com elas uma estranha espécie de violoncelo.
Tanto Villa-Lobos como Smetak e Marco Antônio foram ou são violoncelistas, uma coincidência que pode fazer com que alguém pense que as notas graves do violoncelo têm o poder de excitar a imaginação musical. Mas a magia dos inventores reside em um segredo bem menos complicado do que esse: eles são apenas pessoas que se acostumaram a ver o mundo com olhos musicais, e enxergam sons naqueles objetos que estão em volta de todos nós e nos quais raramente prestamos atenção – como panelas, funis, molas ou mangueiras. Esse poder de ouvir com os olhos não é nenhum dom sobrenatural, é apenas uma questão de sensibilidade: quem chegou até aqui, certamente começará a descobrir no mundo que o rodeia insuspeitadas possibilidades musicais. A partir desse momento, será mais um a desafiar, através da música, a mudez e a aparente frieza dos objetos que fazem parte do dia-a-dia.
